Tiago Taylor, o pai de Hudson, não somente orava fervorosamente por seus cinco filhos, mas ensinou-os a pedirem detalhadamente a Deus todas as coisas. Ajoelhados, diariamente, ao lado da cama, o pai colocava o braço ao redor de cada um enquanto orava insistentemente por eles. Desejava que cada membro da família passasse, ao menos meia hora, todos os dias, perante Deus, renovando a alma por meio de oração e estudo das Escrituras.
A porta fechada do quarto da sua mãe, diariamente ao meio-dia, apesar das suas constantes e inumeráveis obrigações, tinha também grande influência sobre todos, pois sabiam que ela assim, se prostrava perante Deus para renovar suas forças, e para que o próximo se sentisse atraído ao Amigo invisível que habitava nela.
Não é de admirar, portanto, que, ao crescer, Hudson se consagrasse inteiramente a Deus. O grande segredo do seu incrível êxito é que em tudo que carecia, no sentido espiritual ou material, recorria a Deus e recebia dos tesouros infinitos.
E, como os leprosos no arraial dos siros, Hudson e sua irmã, Amélia, diziam: "Não fazemos bem; este dia é de boas novas, e nos calamos". Desistiram, pois, de assistir aos cultos aos domingos à noite e saíram para anunciar a mensagem, de casa em casa, entre as classes mais pobres da cidade.
A chamada de Deus, apesar de Hudson Taylor quase nunca a mencionar, ardia como um fogo dentro do seu coração.
Imagina, centenas de milhões de almas sem Deus, sem esperança, na China! Parece incrível; milhões de pessoas morrem dentro de um ano sem qualquer conforto do Evangelho!... Quase ninguém liga importância à China, onde habita cerca da quarta parte da raça humana... Ora por mim, querida Amélia, pedindo ao Senhor que me dê mais da mente de Cristo... Eu oro no armazém, na estrebaria, em qualquer canto onde posso estar sozinho com Deus. E Ele me concede tempos gloriosos...
Em 1º de março de 1854, Hudson Taylor, com a idade de 21 anos, conseguiu embarcar em Xangai.
Sobreveio-lhe, então, uma grande onda de saudade. Não havia amizade, nem conhecidos, nem qualquer pessoa em todo o país para saudá-lo bem-vindo, nem mesmo alguém que conhecesse seu nome.
Durante os primeiros três meses na China, distribuiu 1.800 Novos Testamentos e Evangelhos, e mais de 2 mil livros. Durante o ano de 1855, fez oito viagens - uma de trezentos quilômetros, subindo o rio Yang-tse. Em outra viagem visitou cinquenta e uma cidades onde nunca antes se ouvira a mensagem do Evangelho. Nessas viagens, foi sempre prevenido do perigo que corria a sua vida entre um povo que nunca tinha visto estrangeiros.
Para ganhar mais almas para Cristo, apesar da censura dos demais missionários, adotou o hábito de vestir-se como os chineses.
Mas uma das cruzes mais pesadas que o nosso herói teve de levar foi a falta de dinheiro, quando a missão que o enviara se achava sem recursos.
Em 20 de janeiro de 1858, Hudson Taylor casou-se com Maria Dyer, uma missionária de talento na China. Desse enlace nasceram cinco filhos. A casa em que moraram primeiro, na cidade de Ningpo, tornou-se depois o berço da famosa Missão no Interior da China.
Com seu espírito indômito, ao chegar à Inglaterra, iniciou imediatamente a tarefa de preparar um hinário e a revisão do Novo Testamento para os novos convertidos que deixara na China. Usando ainda o traje chinês, trabalhava tendo o mapa da China na parede e a Bíblia sempre aberta sobre a mesa. Depois de alimentar-se e fartar-se da Palavra de Deus, fitava o mapa, lembrando-se dos que não tinham tais riquezas. Todos os problemas, ele os levava a Deus; não havia coisa alguma demasiado grande, nem tão insignificante que não fosse deixada com o Senhor em oração.
Passava, às vezes, a manhã, outras vezes à tarde, em jejum e oração.
Com o lápis na mão, abriu a Bíblia e, enquanto as ondas do vasto mar batiam aos seus pés, escreveu as simples, mas memoráveis palavras: "Em 25 de junho de 1865, orei em Brighton pedindo vinte e quatro trabalhadores competentes e dispostos".
Não é de supor que satanás deixasse a Missão no Interior da China invadir seu território com vinte e quatro outros obreiros, sem incitar o povo a maior perseguição. Foram distribuídos em muitos lugares impressos atribuindo aos estrangeiros os mais horripilantes e bárbaros crimes, especialmente aos que propagavam a "religião de Jesus". Alvoroçaram-se cidades inteiras, e muitos dos missionários tiveram de abandonar tudo e fugir para escapar com vida.
Acerca de uma visita que lhe fez na China, certo missionário assim escreveu:
Nunca me esquecerei do gozo e da amável maneira com que me saudou. Conduziu-me logo para o "escritório" da Missão no Interior da China. Devo dizer que foi para mim uma surpresa, ou choque, ou ambas as coisas. Os "móveis" eram caixotes. Uma mesa estava coberta de inúmeros papéis e cartas. Ao lado do lume havia uma cama, bem arrumada, tendo um pedaço de tapete a servir de cobertor. Nessa cama o senhor Taylor descansava de dia e de noite.
O senhor Taylor, sem qualquer palavra de desculpa, deitou-se na cama, e travamos a palestra mais preciosa da minha vida. Toda a ideia que eu tinha das qualificações para ser um "grande homem" foi completamente mudada; não havia nele coisa alguma do espírito de superioridade. Vi nele o ideal de Cristo, da verdadeira grandeza, tão evidente que permanece ainda no meu coração, através dos anos, até o presente momento. Hudson Taylor reconhecia profundamente que, para evangelizar os milhões da China, era imperioso que os crentes na Inglaterra mostrassem muito mais abnegação e sacrifício. Mas como podia ele insistir em sacrifício sem primeiramente praticá-lo na sua própria vida? Assim ele, deliberadamente, cortou da sua vida toda a aparência de conforto e luxo.
Nas viagens pelo interior da China, ele, invariavelmente, se levantava para passar uma hora com Deus antes de clarear o dia, às vezes, para depois dormir novamente. Quando eu despertava para alimentar os animais, sempre o achava lendo a Bíblia à luz de vela. Fosse qual fosse o ambiente ou o barulho nas hospedarias imundas, não descuidava do hábito de ler a Bíblia.
Outro segredo do seu grande êxito em levar a mensagem de salvação ao interior da China era a determinação de que a obra não somente continuasse com caráter internacional, mas também interdenominacional - que aceitasse missionários dedicados a Deus, de qualquer nação ou denominação.
Depois da visita de Hudson Taylor ao Canadá, aos EUA e à Suécia, em 1888 e 1889, a Missão no Interior da China gozou de um dos maiores impulsos para avançar em todos os anais da história de missões.
A gloriosa colheita de almas na China aumentava cada vez mais. Mas a situação política do país piorava dia após dia até culminar na carnificina dos Boxers, no ano de 1900, quando centenas de crentes foram mortos. Somente da Missão no Interior da China pereceram cinquenta e oito missionários, e vinte e um de seus filhos.
Quando visitava as igrejas na China, sem ninguém esperar, nem ele mesmo, findou a sua carreira na terra. Seu passamento aconteceu na cidade de Chang-sha em 3 de junho de 1905.
Muitas foram as cartas de condolências recebidas de fiéis filhos de Deus do mundo inteiro. Emocionantes foram os cultos celebrados em vários países, em sua memória. Impressionantes foram os artigos e livros impressos acerca das suas vitórias na obra de Deus. Mas as vezes mais destacadas , as que Hudson Taylor mais apreciaria, se pudesse ouvi-las, eram as das muitas crianças chinesas, que, cantando louvores a Deus, deitaram flores sobre o seu túmulo.
(trecho extraído literalmente do livro "Heróis da fé". Orlando Boyer. Ed: CPAD. 48ª impressão / Janeiro 2013. pgs. 165 a 186)

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